Márcia de Fátima Plonka (*)
Uma reflexão sobre o comportamento individual versus
comportamento coletivo.
Quem trabalha na área de trânsito depara-se
freqüentemente com queixas do tipo: "Este novo
Código tem vários problemas"; "estas
multas são absurdas", "placas de sinalização
erradas ou depredadas", "pardais" (controladores
de velocidade) interrompendo a fluidez do tráfego",
"guardas corruptos", "taxistas malucos",
"pedestres ignorantes", etc...
Ah... como é difícil ouvirmos algo diferente
de queixas individuais quando o assunto é trânsito.
Parece que as pessoas tem dificuldades de perceberem que
, nesta área, o comportamento coletivo (segurança,
fluxo de tráfego) é muito mais importante
do que necessidades individuais (acesso facilitado, conveniências
pessoais), já que o objetivo maior do sistema de
trânsito é a segurança viária
e a preservação da vida.
Saio mais tarde de casa (porque posso dormir mais um pouco)
e quero exigir fluidez num espaço compartilhado onde
outros também decidiram dormir até mais tarde.
Reclamo quando o taxista não quer estacionar em local
proibido (que facilite o meu acesso) mas fico louco quando
alguém estaciona em frente à minha garagem.
Passo o sinal vermelho (por medo de "assalto")
mas fico indignado quando alguém atropela meu parente,
ultrapassando o sinal. Dirijo alcoolizado (me sinto em perfeitas
condições) mas chamo de assassino do volante
àquele que mata embriagado um amigo meu. Reclamo
dos controles de velocidade mas critico o sistema de saúde
pela falta de leitos nos hospitais públicos (a maior
parte das ocupações de leitos hospitalares
é de acidentados no trânsito). Atendo o celular
(quando poderia deixá-lo desligado enquanto dirijo)
mas critico diariamente as "distrações"
de outros motoristas ao volante.
Limites de velocidade, multas pesadas, leis, - acredite
- elas não foram criadas porque alguém resolve
colocar obstáculos na vida de pacatos cidadãos.
Geralmente são fruto de estudos aprofundados discussões
amplas em busca de segurança, fluidez de tráfego,
preocupações ecológicas, entre outras
que visam o bem comum.
Por que é tão difícil abdicarmos de
mordomias individuais em prol de um bem maior, em favor
de necessidades comunitárias, em respeito a vida
do nosso semelhante?
Parece tão difícil entender que nas vias públicas
o espaço necessariamente tem que ser compartilhado.
E mais ainda, tem que ser compartilhado com todos os meus
compatriotas, sejam eles pobres ou ricos, brancos ou negros,
cultos ou analfabetos, pedestres ou motoristas, ciclistas
ou motoristas profissionais, jovens ou idosos, etc.
Visto desta forma, o trânsito nos parece um ótimo
espaço para o exercício da democracia e da
cidadania, palavras tão utilizadas em nossos discursos
mas tão pouco exercitadas em nosso dia a dia.
Falamos da cidadania no café da manhã em família
mas minutos depois quando colocamos "o pé para
fora de casa" começamos imediatamente a colocar
os nossos direitos acima dos demais cidadãos. E aí,
a culpa é do governo? Será que é o
governo que tem que ensinar ao meu filho que o direito dele
termina quando começa o do outro? Sim, o difícil
é delimitarmos quando iniciam ou terminam os nossos
direitos. Será tão difícil ou basta
nos imaginarmos do outro lado?
Acredito firmemente que a busca pela qualidade no trânsito
deve iniciar-se no resgate ao respeito, consciência
da cidadania e educação de base. Passa necessariamente
pela substituição do EU pelo NÓS no
trânsito.
(*)
Psicóloga especializada em educação
e segurança de trânsito